segunda-feira, 26 de abril de 2010

Aproximando o "Soneto da separação"

De repente do pranto fez-se o riso
Falante e amarelo como o sol
E das bocas separadas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o esperado.
De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos acendeu a primeira chama
E da paixão fez-se o sentimento
E do momento imóvel fez-se a comédia.

De repente, não mais que de repente
Fez-se de alegre o que se fez odioso
E de acompanhado o que se fez infeliz.

Fez-se do amigo distante o próximo
Fez-se da vida uma aventura certa
De repente, não mais que de repente. 

Vinícius de Moraes

terça-feira, 20 de abril de 2010


      ANNABEL LEE
     
Foi há muitos e muitos anos já,
Num reino de ao pé do mar.
Como sabeis todos, vivia lá
Aquela que eu soube amar;
E vivia sem outro pensamento
Que amar-me e eu a adorar.

Eu era criança e ela era criança,
Neste reino ao pé do mar;
Mas o nosso amor era mais que amor --
O meu e o dela a amar;
Um amor que os anjos do céu vieram
a ambos nós invejar.

E foi esta a razão por que, há muitos anos,
Neste reino ao pé do mar,
Um vento saiu duma nuvem, gelando
A linda que eu soube amar;
E o seu parente fidalgo veio
De longe a me a tirar,
Para a fechar num sepulcro
Neste reino ao pé do mar.

E os anjos, menos felizes no céu,
Ainda a nos invejar...
Sim, foi essa a razão (como sabem todos,
Neste reino ao pé do mar)
Que o vento saiu da nuvem de noite
Gelando e matando a que eu soube amar.

Mas o nosso amor era mais que o amor
De muitos mais velhos a amar,
De muitos de mais meditar,
E nem os anjos do céu lá em cima,
Nem demônios debaixo do mar
Poderão separar a minha alma da alma
Da linda que eu soube amar.

Porque os luares tristonhos só me trazem sonhos
Da linda que eu soube amar;
E as estrelas nos ares só me lembram olhares
Da linda que eu soube amar;
E assim 'stou deitado toda a noite ao lado
Do meu anjo, meu anjo, meu sonho e meu fado,
No sepulcro ao pé do mar,
Ao pé do murmúrio do mar. 

Edgar Allan Poe

domingo, 11 de abril de 2010

Negando Caio!




Afaste-se de mim. Não me olhe, não me toque, não me diga qualquer coisa. Ou diga algo, mas afaste-se  mais. Seja idiota, deixe isso se perder, virar poeira, virar nada. Daqui há pouco você vai crescer e achar tudo isso perfeito. Antes que tudo se encontre, enquanto ainda posso dizer não, por favor, afaste-se mais. 
"Caio Fernando Abreu"

sexta-feira, 9 de abril de 2010

...



  É com pesar que sou obrigada a expor a minha indiguinação, para com a falta de educação que as pessoas têm. Não há motivos nem algum fato construtivamente real que leva uma pessoa a ser sem educação com a outra inclusive se esses motivos forem individuais. O fato é que dói, e a dor é realmente horrível, incalculável...
   Estou hoje, e agora mais do que nunca, certa de que os motivos pelos quais estou sofrendo ofensas são  injustos e irracionais, e o sentimento que eu tenho é de dor. Dói ver alguém ser mal educado e te ofender sem você nem amenos conversar com a pessoa. Não dei motivos, não provoquei e nem ao menos me rebaixei ao mesmo nível para ser "HUMILHADA" diariamente da forma na qual as coisas estão acontecendo, principalmente pelo fato de que a "vitima" da história que ocasionou todo este conflito deveria ser eu. Mas pelo contrário, não quero e nem nunca quis parecer ser a vítima sofredora, que chorou incontestavelmente pelos atos alheios, pois a única pessoa que deveria saber, ou ter certeza de algo ou até mesmo achar alguma coisa dos acontecimentos é eu e mais ninguém.
  Não estou me julgando à vítima nem muito menos dizendo que estou completamente certa de alguma coisa ou que tudo que eu digo é verdade, mas todas as confusões possuem dois lados, e pelo meu lado, até onde eu sei, não provoquei nem muito menos ofendi ou dei motivos para que essa "confusão" se prolongasse, pois a única coisa que eu realmente fiz foi ficar calada e guardar para mim tudo que eu estava sentido e todas as verdades que gostaria de falar para que não houvesse conflito, ofensa ou qualquer outro tipo de desrespeito, mas a única coisa que consegui com isso, foi ser ofendida gratuitamente e colocar as demais pessoas que convivem comigo em uma situação na qual elas não necessitavam vivenciar.
  Gostaria de deixar claro que absolutamente ninguém tem a obrigação de falar com outra pessoa, inclusive se isso for feito com o intuito de não haver confusão. Minha indignação real é pelo fato de que eu, nem absolutamente ninguém é  obrigada  a ser desrespeitado diariamente por nenhum motivo, e nem mesmo ser ofendido.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Tabacaria.

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.

(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente

Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,

Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.

Fernando Pessoa

domingo, 21 de março de 2010

Onde está a ética do "politicamente correto"?


O politicamente correto ou a correção política, foi criado com o propósito de minimizar o impacto de certas palavras, frases, músicas, etc., que são de origem ofensiva, racista ou sexista. Porém, essa política corretiva criou um envoltório preconceituoso e rotulado, onde a definição de grupos sociais é generalizada para todo o meio social. 
Entre os inúmeros  problemas gerados estão sistema de cotas para universidades federais e estaduais. Tudo bem, não resta dúvidas que a sociedade brasileira em si tem de prestar contas com índios e negros pela humilhação que eles sofreram durantes centenas de anos, mas aprovar um aluno em uma universidade por cota é o mesmo que dizer: "Não  estou te aprovando porque você é capaz, estou te aprovando porque você é negro"... Onde está à correção política nisso? Sem contar que, uma prestação de contas sociais não se faz através de cotas utilizadas de maneira injusta para os estudantes, tanto para os que entram na cota quanto para os que não participam...
A correção política exclui de forma injusta o direito de existências de certas expressões... A questão é que, não se pode chamar um homossexual de veado, mas podemos chamar uma loira de burra... Isso não é correção política, porque isso não é ético.
Ética significa o que é bom para o indivíduo e para a sociedade, e seu estudo contribui para estabelecer a natureza de deveres no relacionamento indivíduo - sociedade, mas de maneira alguma o conceito ético estabelece a exclusão, generalização ou modificação de termos, leis e costumes para a aceitação social... O respeito não se constroi com criação de cotas ou eufemização de expressões ou até mesmo a modificação de músicas infantis, porque o respeito se constroi através da consciência social.
Outra coisa que gostaria de evidenciar aqui, é o fato de que a correção política prega também a aceitação em escolas, empresas, etc., de pessoas independentemente de elas serem deficientes, ou não... Mas o Estado não oferece capacitação para que as outras pessoas aprendam a se comunicar em libras com deficientes auditivos e mudos, não estabelece padrões obrigatórios para favorecer a locomoção de cadeirantes e outros deficientes, não oferece condições para que escolas públicas possam ensinar deficientes visuais, auditivos, mudos, deficientes mentais, etc., fazendo com que a sociedade em si exclua essas pessoas por falta de conhecimento e aproximação. 
Não se deve fazer uma política corretiva eufemizando termos, mas sim aproximando de forma justa todos os cidadãos independente de quem eles sejam ou o que eles são.
Beijos a todos

segunda-feira, 8 de março de 2010

O curto tempo do dinheiro

Estava me questionando esses dias de como ocorre diariamente algo incrível, na qual você praticamente nem percebe ou certo, a forma na qual o seu dinheiro acaba rápido em poucos minutos, de como a sua conta de telefone, luz, água, etc., vem cara sem você nem mesmo ter gasto uma quantidade significativa de água, luz, telefone, etc.,... sem contar que o preço das coisas sobem absurdamente rápido...Por conta dessas discuções intrigantes a respeito do dinheiro, acabei chegando a algumas conclusões interessantes:
  1. Seu vizinho, muito gente boa, fez um gato e utiliza da mesma energia que você.
  2. Você tem o mesmo nome que alguma outra pessoa na cidade que gasta uma quantidade acima do normal de água, luz, telefone,etc..
  3. Ou... Jesus está se vingando de você (e de todas as outras pessoas do universo também), usando e abusando da sua linha telefónica, da sua energia, e gastando uma quantidade erroneamente grande de água, só porque ele morreu na cruz no seu lugar... Sim, isso também pode explicar o aquecimento global (y).
Tudo bem, tudo bem, vamos ser mais realistas... O fato é que, todo o mês após receber o seu "salário", você entra em um ciclo vicioso de gastos (in)úteis, que o faz, em menos de um mês, gastar tudo aquilo que você ganhou trabalhando duro (ou não), incluindo as inúmeras contas que devem ser pagas pelos simples fato de existirem, sem você nem mesmo usa-las.
Vale ressaltar também, que tudo é pago; Não há piedade de cobrança ou formas de pagamento "justas"... A única coisa que vale, realmente, dentro deste ciclo vicioso de gastos, é receber, gastar e não ter mais dinheiro.

Beijos a todos